
Hoje, por volta das 23h, estarei neste programa, na Sic Radical. De óculos vermelhos e pêlo branquinho...



Convenhamos: a luta livre é para ser gozada! E quanto melhor for gozada mais se demonstra a sua verdadeira essência. Digo isto porque sou fã de luta livre há muitos anos e sei exactamente o que a luta livre pretende representar (falo obviamente da luta livre de entretenimento e não da luta greco-romana, apesar de haver uma ligação subjacente entre elas no que respeita a algumas técnicas usadas em combate). Tanto a luta livre americana como a luta livre mexicana (focada neste filme) têm a capacidade de criar super-heróis reais. Com base em argumentos escritos, lutas combinadas, personagens esteriotipadas, roupas vistosas mas, principalmente, através das capacidades dos atletas para criar movimentos onde arriscam a própria vida (e em que alguns já a perderam), criam enredos por vezes tão complexos que mesmo nós, os que já vemos aquilo há demasiado tempo, voltamos a acreditar. É como se fosse uma novela de acção em que todas as questões dramáticas se resolvem num ringue. E tudo se contrói no sentido desse duelo final onde as emoções explodem!







Pela primeira vez, desde que me conheço como blogger, fui desafiado! O meu caro amigo Pedro Passaporte pede-me para definir os 5 principais traços da minha personalidade enquanto leitor de Comics. Ainda assim, escolho não só dizer como me analiso enquanto leitor de comics, mas também enquanto apaixonado e colaborador nesse magnífico e complexo mundo de arte e comunicação.
1) Desde muito cedo que o mundo das imagens me fascinou. Apesar de nunca ter descoberto em mim a vocação para o desenho ou para qualquer outra vertente artística de carácter visual, sempre fui muito sensível à beleza estética das formas, das cores e da luz. Seduzido pelo grafismo, depressa me iniciei na leitura de histórias ilustradas e, possivelmente, foi essa preferência que facilitou a minha entrada no mundo da banda desenhada. Os meus primeiros livros começaram por ser aqueles herdados dos meus familiares, como o Tintin e o Asterix. Como mais tarde me apercebo, essas histórias serviram não só para desenvolver o meu prazer pela leitura, mas principalmente para me mostrar conceitos que, possivelmente, e devido à minha história familiar, nunca teria conseguido apreender através dos meus pais ou professores. Cada vez que se lê uma história aprende-se qualquer coisa nova, quer seja devido à nossa idade, quer seja por já termos no nosso consciente informação que não tínhamos quando lemos a história pela primeira vez. Mas ainda assim, acredito na educação do nosso inconsciente, e mesmo que nessas primeiras vezes não tenha compreendido tudo o que estava descrito, sei que desenvolvi uma parte importante da minha consciência.
2) Com dez anos de idade, quando passava férias no Algarve, um primo meu deu-me todos os livros de banda desenhada que tinha porque ia mudar de casa e não os queria levar. Foi o meu primeiro contacto com livros de super-heróis. Ele era um grande fã do Capitão América, do Homem-Aranha e do Hulk, e os livros eram as versões brasileiras da Panini que tanto inspiraram toda uma geração nos desvairados anos 80. Fiquei completamente embevecido com aquelas histórias. O que mais me emocionava era que aquelas não eram pessoas que faziam coisas maravilhosas porque eram mágicos ou porque tinham grandes armas, mas sim personagens que tinham sofrido acidentes, que suportavam nas costas uma benção que ao mesmo tempo era uma maldição (uma máxima que desde sempre caracterizou as criações das personagens da Marvel). O exemplo mais acabado dessa máxima era o Homem-Aranha. Já com os dois pés na minha juventude, era importante ver que o Peter Parker tinha problemas com os quais eu me podia identificar. Foi nessa altura da minha vida que um amigo me disse que havia uma loja em Lisboa que vendia comics originais, importados dos E.U.A.. Era uma loja que ficava escondida num centro comercial sinistro, perto do largo do Calvário. Comecei a fazer peregrinações religiosas a esse santuário e a deliciar-me com a quantidade de imaginação que emergia de todas aquelas capas coloridas. Para além disso, o dono da loja era um "monstro" esquisito, cheio de tatuagens e brincos, que falava eloquentemente sobre cada livro, cada autor, cada tema ou cada história, como se aquelas revistas fininhas fossem pequenos tesouros que escondiam maravilhas. E eram.
3) Fui-me apaixonando cada vez mais pela arte (tanto visual como literária) daquele meio tão complexo e, estando já no agrupamento de artes da escola secundária do Lumiar, conheci pessoas que me foram apresentando outras vertentes da BD que eu desconhecia. A BD underground americana, europeia e japonesa foram novas descobertas que me incentivaram ainda mais a descodificar a complexidade desta forma de arte. Foi quando comecei a comprar avidamente livros sobre o ofício da banda desenhada. A partir desse momento, não só comecei a ler BD de forma diferente, como decidi começar a escrever argumentos.
4) Já quando estava na faculdade, e com início do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, decidi começar a participar nos concursos (juntamente com o meu grande amigo e exímio ilustrador, Kimosabe), ganhando finalmente uma Menção Honrosa à segunda ou terceira tentativa. Essa singela distinção deu-me o privilégio de ser contactado pelo editor de BD da revista "Os Fazedores de Letras" para um workshop de BD no FIBDA do ano seguinte. Depois de algumas demonstrações improvisadas na altura, fui convidado a escrever histórias para essa publicação da Faculdade de Letras. Assim, passados alguns anos, orgulho-me de ter três histórias publicadas e de ter participado no nº 0 (de lançamento) da revista "Blast" com outra história (agora com desenhos do Ricardo Cabral. Por falar nisso, o nº1 da revista agora denominada "Blazt" já saiu. Como todos os novos projectos, é uma edição cheia de entusiasmo e, para além de uma história curta mas emocionante do próprio Ricardo Cabral, conta com a participação dos vencedores do FIDBA do ano passado.) Há um ano atrás, participei no excelente curso de Argumento para Banda Desenhada, Ilustração e Animação 2D e 3D do CITEN (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian) e fiquei ainda mais imerso nas imensas possibilidades que a BD apresenta, e surpreendido com a sua ligação com o mundo do cinema de animação. A fantasia não tem fim.
5) Agora, desde que trabalho (como redactor publicitário) não tenho tido muito tempo para escrever histórias, mas continuo a tê-las na gaveta. Quanto à leitura de BD, depois de um período em que o dinheiro escasseava, voltei a ter possibilidade de adquirir as fininhas revistas mensais (sim, Pedro, também prefiro as fininhas. Os TPB anulam o impasse do suspense até à chegada do número seguinte). Voltei a apaixonar-me pelas infinitas possibilidades desta realidade que, levada ao extremo, possibilita tudo, e onde a felicidade pode estar escondida no breve espaço entre duas vinhetas.
Era comic a minha corrente continuar por aqui:

Um blog é como um bloco de notas que se vai preenchendo ao sabor do desejo de escrever. Com um tema, vários temas ou nenhum tema em especial, é um local onde se libertam as ideias à medida que vão elas surgindo. E daí, talvez não.
Costumo consultar blogs diários, que falam de assuntos específicos, obrigando os seus "fornecedores de conteúdo" a debruçarem-se sobre questões profundas e a desenvolverem extensos textos de notícia e análise. Outros são mais relevantes pela ligeireza e simplicidade da escrita, pelo pensamento livre e mundano, mas ainda assim atento à realidade, incisivo, aberto, muitas vezes ideológico, por vezes até mesmo revolucionário. Outros ainda singram pela beleza, pela efemeridade, pela alegria ou até mesmo pela pura magia.
Sendo assim, afirmo que este não é um blog regular. Não é actualizado todos os dias, os temas não são pertinentes, a forma de escrita não é sempre igual, nem sequer há uma referência contante ou mesmo interesse pelas notícias nacionais ou internacionais. Considero este um blog mental e, como a mente, não tem consistência. Os textos e as imagens que aqui publico não fazem parte de uma apetência recalcada para o ofício jornalístico, analítico, crítico ou paralítico. Aqui o que conta é a vontade, a vontade de escrever ou não escrever, de mostrar ou não mostrar, de entender ou não entender, de reagir ou de fugir, de postar ou apostar.
Agradeço a todos os que visitam este blog e principalmente aos que partilham comigo o seu comentário, porque esse sim, é o intuito de um blog: partilhar ideias.

O que faz um beijo na minha almofada? Tinha-a guardado para a altura certa, para quanto ELA viesse cá a casa, dormir comigo, só dormir, nada mais. Agora vejo que tem um beijo. Pintado de vermelho, como se fosse sangue e não baton. Um vermelho bem vivo, entranhado no tecido. Assim já não a posso usar quando ELA me vier visitar. Tiro-lhe a fronha e ponho-a para lavar. A meio da actividade a máquina dá o berro e começa a cuspir água. Vá de lavar à mão, à moda antiga, com uma barra de sabão. O vermelho custa a sair. O branco tingido vai ficando cor-de-rosa. O rosa alastra-se. As mãos ganham cor. A campainha toca. Era hoje que ELA vinha. O rosa chega-me à face. O ralo borbulha com o escorrer da água. A espuma permanece na bancada da cozinha, como se pertencesse à mobília. Com a fronha corada entre os dedos vou salpicando o chão inundado. Desfaço-me em água junto à porta de entrada. A campainha volta a tocar. É ELA, é ELA, tenho que me despachar. Laço a fronha no estendal. Uma bandeira cor-de-rosa à janela é sinal que lá vem ELA. Limpo as mãos à roupa que também ganha outro tom. Puxo o cabelo para trás. Vejo se o hálito está bom. Cheira a sabão e água raz. Desço as fronhas da camisa e coloco um sorriso sobre a gravata desalinhada. É agora, o tudo ou nada. Destranco a porta com duas voltas e meia. Os trincos giram sobre si até que o monstro blindado se liberta da tensão. Faço o movimento de abertura para mim mas a porta fica presa no chão. O meu sorriso descai ligeiramente, perturbado com a pouca fluência do gesto. ELA do outro lado à espera da minha insistência. Asseguro-lhe que tudo está bem, conforme estava planeado. Transpirando, oiço os saltos dos seus sapatos por todo o lado. Deve estar farta de esperar. Arregaço novamente as mangas para um último gesto de força. Os meus dedos enrugados da água colam-se ao objecto emadeirado. Força, força, penso eu, lembra-te do que está combinado. Finalmente a porta cede, mas abre com tanta força que não evito ficar entalado. Caio no chão, completamente estafado. ELA entra, muito recta, com os seus saltos bem altos. Os meus olhos nem acreditam. Sigo o torneado das pernas, subo a anca e as costas. Perco-me no desenho do pescoço até me deixar apanhar pelos ganchos do cabelo. ELA nunca pára. Segue sempre direita ao quarto. Levanto-me, ainda cambaleante. Levo as mãos à cabeça para tentar ficar equilibrado. Tento manter-me erguido mais do que alguns segundos mas as minhas pernas fraquejam. Volto a cair para o lado. Desta vez permaneço sentado. Talvez amanhã consiga chegar até ELA.













A porta da rua custa a abrir.
As luvas nas mãos transpiradas escorregam na maçaneta polida e puxam o lustro ao objecto redondo banhado a ouro. Estou demasiado entusiasmado para perder tempo com objectos inanimados.
Seguro a peça esférica com as duas mãos e cerro os dentes. A porta permanece imóvel. Através do vidro vejo que neva lá fora. Nunca nevara nesta altura, nesta cidade. As ruas inundadas de pessoas que parecem agradecer aos céus mais esta dádiva, que apenas faz frio. A porta agita-se com uma bola de neve que embate junto à fechadura, ressaltando pequenos flocos brancos para as minhas botas negras. Foi o pequeno Tomás da casa
Odeio o Inverno.




