segunda-feira, maio 21, 2012

Tábua rasa...


Depois de uma tia-avó com Alzheimer, uma avó com Alzheimer. Despassarado como sou, isto não augura nada de bom...
Muitas vezes me perguntam porque quero fazer tantas coisas, com muitas pessoas, em muitos sítios. Primeiro porque não acredito em Deus. Não acreditar em Deus faz-me acreditar que o potencial da vida é viver em vez de se estar à espera de ir para o paraíso depois de bater as botas. Segundo porque não quero ser o António Feio nem aquelas pessoas que "só dão valor à vida" quando estão às portas do cancro. Depois porque experienciar as coisas sozinho faz com que, à medida que a memória vai falhando, fiquemos a duvidar se as coisas realmente aconteceram, se as sonhámos ou se nos contaram e nós só as imaginámos. Partilhar uma experiência com alguém é mais do que a partilha de um momento, é a partilha de uma memória, de uma história e é isso que fortalece os laços entre as pessoas. Para além de tudo isto, ter a experiência da vida é assumir que vivemos uma vez. É assumir que a vida serve para algo mais do que apenas para ajudarmos a destruir o planeta por acharmos que somos mais que os outros seres vivos.
Recentemente um dos meus mentores dissertou sobre um estudo sobre a existência de almas e da sua evolução ao longo dos tempos. Explicou como as almas se manifestam nos corpos para evoluírem. E essa evolução ocorre com as experiências físicas e emocionais de cada corpo. Segundo esse estudo, essa evolução das almas é que tem permitido ao Homem chegar ao nível de desenvolvimento a que chegou, explicando da mesma forma a evolução mais "restrita" dos animais, condicionados pelo seu habitat e pelas suas próprias necessidades e ações. Se uma vaca passa a vida a pastar é normal que não evolua muito. Da mesma forma que o facto de um golfinho ou um macaco terem necessidades e actividades mais complexas definir que a sua evolução é mais notória. Ou seja, as almas supostamente são transferidas de corpo para corpo quando os corpos morrem, ou podem até habitar vários corpos ao mesmo tempo. Isto é uma visão que vai mais de encontro à filosofia budista do que de outra religião qualquer, mas ainda assim não é algo que me faça pensar muito. Não vivo a pensar que estou a educar uma alma ou que estou a contribuir para um mundo melhor. Vivo para que viver valha a pena. Vivo para que este tempo passado de olhos abertos signifique alguma coisa.
 Ver a minha avó a falar com toda a gente como se fosse a primeira vez é assustador mas ao mesmo tempo é inspirador. E a melhor cura para o esquecimento dela é sem dúvida a capacidade das outras pessoas guardarem em si as suas memórias. Da mesma forma, sentirei que a minha vida foi bem vivida se souber que as minhas memórias foram guardadas por pessoas com quem partilhei a minha vida... nem que tenha sido só por um breve momento.

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