sexta-feira, outubro 08, 2010

Maravilha...


Ler isto fez-me acreditar em Deus. Não no Deus barbudo e peneirento que se monta nas nuvens, mas num Deus de óculos escuros e bigode grisalho com um sorriso simpático chamado Stan Lee, o criador do Universo Marvel. A sua capacidade criadora deu origem a heróis que perduram há mais de 50 anos e que têm inspirado jovens e adultos em todo o mundo. Este tipo de reverência pareceria ridícula, não fosse a importância que um universo paralelo como o da BD teve ao longo da fase mais conturbada da minha vida. Esse refúgio, para além de me "proteger" de uma realidade por vezes inóspita, deu-me algumas lições importantes que, de outra forma, não me teriam sido ensinadas por quem de direito. Considero até que este universo de heróis cheios de imperfeições humanas (ao contrário da perfeição sobre-humana de heróis como o Super-Homem) pode mesmo ter-me salvo de um futuro muito mais desequilibrado e insustentável, quer a nível emocional, quer ao nível da perceção minha própria realidade e daquilo que me rodeia. Foram histórias que me inspiraram a ser uma melhor pessoa e a fazer o que está correto. Apercebi-me disso racionalmente há pouco tempo. Numa situação de escolha entre sofrer ou fazer mal a outra pessoa, preferi magoar-me a mim. Ninguém me ensinou isso diretamente. Daí considerar que só posso ter aprendido através dos exemplos que lia nestes livros. Sacrificar-nos por alguém é a maior prova de altruísmo e não é fácil tomar essa decisão se não soubermos o que isso significa. A natureza humana privilegia a auto-preservação. Comprometer esse conceito básico é possivelmente a decisão mais árdua que um ser humano pode tomar. Nem sequer tem a ver com solidariedade, o ato de ajudar o próximo. Tem a ver com abnegação. Sacrificar-nos a nós mesmos por um bem maior. E isso é uma lição de vida maior que qualquer outra. Por muito que queiramos algo, o bem-estar daqueles que gostamos é sempre mais importante. Esse é o conceito de salvar. Perceber que nós não somos as coisas mais importantes do mundo e que há coisas muito mais preciosas.
Ao longo de anos, segui as aventuras de inúmeros heróis, identificando-me mais com uns do que com outros, e alternando os meus gostos à medida que ia crescendo. No entanto, ao comprar o Earth X nunca pensei que todos esses anos, todas essas histórias e todos esses heróis pudessem fazer tanto sentido em termos criativos, em vez de serem apenas criações díspares e autistas. É certo que Stan Lee criou a maior parte deles, mas talvez nem ele tenha percebido até que ponto todas as suas ideias faziam um sentido maior quando conjugadas, do que serem simplesmente um coletivo de personagens coloridas e bizarras.
Earth X é a bíblia para quem vive no Universo Marvel. Passado num futuro em que os heróis (finalmente) envelheceram, esta é a história de como tudo o que aconteceu ao longo de 50 anos culminou num momento de cataclismo mundial, em que todos os heróis são postos à prova uma última vez. Através dos olhos do ser que observou toda a evolução do planeta Terra, ficamos a saber como um mundo de super-heróis seria possível e até credível, contrapondo essa teoria para a nossa própria realidade. Muitas das teorias apresentadas podem ser aplicadas no mundo real. Religião, política, história, arte, fenómenos naturais. Tudo isso é justificado. E é surpreendentemente lúcido e credível. Um verdadeiro deleite para quem viveu neste universo tanto ou mais tempo que eu. Um clássico para os clássicos. Só é pena o Alex Ross ter ficado pelas capas.

3 comentários:

Mári len disse...

é que é mm isso!:)infelizmente uma "religião " que não chegou a todos!!!
e agora vou ter de ir buscar essa reliquia!!!!!:)

Sandrinha disse...

Thank You!

;o)

Nicole Brito Bravo disse...

ADOREI !!